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Pensar é urgente! Blog do prof. Leonardo Botega
 


 

O direito de greve.

Leonardo da Rocha Botega - professor de história.

"A greve é a linguagem dos que não são ouvidos"- Martin Luther King.

A greve foi um instrumento criado pelos trabalhadores organizados ao longo do século XIX para a reivindicação de melhorias em suas condições de trabalho. Surge em substituição às quebras das máquinas utilizadas pelos ludistas ingleses. Desde então tem sido um importante instrumento de conquista de direitos sociais pela sociedade.

Tanto o liberal John Locke como o marxista Lênin, tinham uma convicção de que o povo ao sentir-se descontente com aquele que lhes governa tem o direito de rebeldia. E foi este direito de rebeldia que construiu as mais amplas noções de cidadania que consolidaram a democracia no mundo moderno. Afinal, teriam os franceses adquirido a igualdade se não tivessem pressionado a Assembléia Constituinte? Teriam os brasileiros conseguido a CLT se não tivessem um histórico de grandes greves ao longo da República Velha e do início da Era Vargas? Teríamos superado a ditadura sem as greves do ABC?

Em que pese estes questionamentos históricos o fato é que diante da avalanche neoliberal das últimas décadas muitas das conquistas sociais e democráticas se viram ameaçadas. A flexibilização das relações de trabalho resultou no retorno da super-exploração e o aumento do desemprego uma ameaça a subsistência de boa parte da coletividade. Recentemente, em uma repetição do que foi feito por FHC na greve dos petroleiros de 1995, o direito de greve se vê ameaçado pelo governo do RS com o corte do ponto dos trabalhadores em educação grevistas. Esta medida é resultado de uma concepção autoritária de poder, que não vê na sociedade civil organizada uma forma de expressão democrática de descontentamento.  Ao mesmo tempo, representa uma afronta à construção de uma sociedade democrática. Pois não há democracia com o silêncio das ruas.

A greve é sim parte da construção de uma sociedade democrática. E qualquer contrariedade a esta representa uma afronta a própria democracia. Infelizmente, não pensam assim aqueles que acreditam que o poder não precisa ter limites. Esperamos que, diante da ação impetrada pelo CPERS/Sindicato, o judiciário não tenha este mesmo pensamento para que no futuro não tenhamos que repetir as palavras pronunciadas por André Malraux no imediato pós-Segunda Guerra: "Vi as democracias intervirem contra quase tudo, salvo contra os fascismos."

Publicado no Diário de Santa Maria em 10 de dezembro de 2008



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 17h51
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20 anos da Revolução dos Pretos, dos Pobres e dos Favelados

Leonardo da Rocha Botega[1]

"eu sou bem pior do que você tá vendo/preto aqui não tem dó é 100% veneno/a primeira faz bum a segunda faz tá/eu tenho uma missão e não vou parar/meu estilo é pesado e faz tremer o chão/minha palavra vale um tiro eu tenho muita munição/na queda ou na ascensão minha atitude vai além/e tenho disposição pro mal e pro bem/talvez eu seja um sádico, um anjo, um mágico,/juiz ou réu um bandido do céu/malandro ou otário, padre sanguinário,/franco atirador se for necessário/revolucionário, insano ou marginal/antigo e moderno, imortal/fronteira do céu com o inferno/astral imprevisível, como um ataque cardíaco no verso/violentamente pacífico, verídico/vim pra sabotar seu raciocínio/vim pra abalar seu sistema nervoso e sanguíneo/pra mim ainda é pouco da cachorro louco/numero um dia terrorista da periferia". (Capitulo 4, Versículo 3 - 1997).

 

Em 1988 um novo grito das ruas surgia. Naquele ano o selo Zimbabwe Records, especializado em música negra, lançou a coletânea "Consciência Black". Entre os váriados ritmos chamava atenção um grupo que mesclando um Rap agressivo com os embalos da Black music, mostravam em suas letras a realidade das periferias do Brasil. Eram os Racionais MC's, um dos principais grupos de rap e hip-hop nacional, que a partir de "Pânico na Zona Sul" e "Tempos Difíceis" apresentavam a Revolução dos Pretos, dos pobres e dos favelados.

Dois anos depois com o LP "Holocausto Urbano", Mano Brown (Pedro Paulo Soares Pereira), Ice Blue (Paulo Eduardo Salvador), Edi Rock (Edivaldo Pereira Alves) e KL Jay (Kleber Geraldo Lelis Simões) anunciavam um novo período na música nacional. Em tempos em que o anteriormente contestador Rock nacional parecia cada vez mais fadado a uma acomodação comercial, os Racionais MC's começava a ocupar o espaço da música de protesto, desta vez com um diferencial significativo, não eram mais os "filhos da Revolução" ou os "burgueses sem religião" aclamados por Renato Russo que assumiram a função de crítica social, mas sim, aqueles que mais sofriam com a exclusão social.

Aumentando o tom de denúcia social, falando de verdadeiros tabus, ocultados pelos antigos rockeiros de classe média e usando a linguagem de quem cresceu no Morro do Piolho em São Paulo, os Racionais MC's lançam em 1993, "Raio X do Brasil", terceiro disco do quarteto. O segundo "Escolha o seu Caminho" consistia apenas de duas músicas, "Voz Ativa", que aparecia com três versões diferentes, e "Negro Limitado". Neste terceiro álbum a função crítica reivindicada pelo grupo adquiria uma maior ferocidade com "Fim de Semana no Parque", "Homem na Estrada" e "Mano na Porta do Bar", onde Mano Brown escrevia que "A lei da selva consumir é necessário/Compre mais, compre mais/Supere o seu adversário/O seu status depende da tragédia de alguém/É isso, capitalismo selvagem".
Em 1994, os Racionais MC's sofrem a primeira represália a sua postura crítica. Após a sua apresentação no "Rap no Vale", concerto realizado no Vale do Anhangabaú no centro de São Paulo que acabou em confusão e quebra-quebra, acabam sendo presos pela polícia sob acusação de incitação à violência. Na denúncia constavam trechos de letras de músicas do grupo cujo tema era a represão, a violência e a discriminação policial. Porém, a prisão não foi suficiente para calar a boca dos rappers que a cada dia se tornavam mais populares, sobretudo, entre os jovens das periférias do Brasil e nos anos posteriores, os Racionais se ocuparam em fazer shows filantrópicos e a participar de protestos contra o neoliberalismo e denúnciando o caráter elitista das comemorações da Abolição da Escravidão no Brasil.
Quatro anos depois de "Raio X do Brasil", os Racionais MC"s se consagram definitivamente com o lançamento de "Sobrevivendo no Inferno". Neste novo álbum, os temas críticados nas músicas eram mais diversificados, além da violência policial, das drogas, dos jovens perdidos no tráfico, da miséria das favelas, em "Diário de um detento" davam a voz aos presos e o cotidiano das cadeias. Outros sucessos também foram "Fórmula Mágica da Paz", "Capítulo 4, Versículo 3" e "Mágico de Oz".
"Sobrevivendo no Inferno" marcou definitivamente o Rap nacional e os Racionais MC's acabaram se tornando um grupo respeitado e escutado não somente nas periferias, mas também entre os jovens de classe média e os intelectuais passaram a analisar o Hip-Hop como um fenômeno social. Caetano Veloso chegou a afirmar que Mano Brown era o grande poeta da atualidade. O disco chegou a marca de 500 mil cópias vendidas somente com distribuição do próprio grupo (nas bancas de jornal, bailes, clubes, quadras, shows e camelôs).
O Video-Clip também tornou-se uma realidade para o grupo. As imagens agressivas do clip de "Diário de um detento", gravado dentro do Carandiru, foram aclamadas na MTV, conquistando o prêmio da escolha do público e de melhor clip no Video Music Brasil de 1999. Naquela ocasião, Mano Brown mostraria outra face do grupo, a postura anti-grande midia. Ao receber o prêmio provocou a platéia presente no evento, dizendo que a mãe dele já teria lavado a roupa de muitos daqueles "boys", e ressaltou que o público dos Racionais MC's continuaria sendo o da periferia.
Em 2002, os Racionais MC's lançariam "Nada Como Um Dia Após O Outro Dia", disco duplo que, assim como seu antecessor, foi bem recebido pela crítica. Entre os maiores sucessos estão "Vida loka (Parte I)", "Vida Loka (Parte II)", "Negro Drama", "Jesus Chorou" e "Estilo Cachorro". Em 2007, o grupo lançou "1000 Trutas, 1000 Tretas", primeiro DVD do grupo.
Como forma conclusão, ao fazer um balanço dos vinte anos da primeira gravação onde os Racionais MC's apareceram, não podemos deixar de constatar a importância que estes tiveram não apenas na divulgação do Rap e da cultura Hip-Hop, mas também a verdaderia icógnita representada pelo sucesso de um grupo que apesar de atuar essencialmente na periferia, de não fazer uso de grandes midias como TVs abertas, se recusando a participar de grandes festivais, vendeu durante a carreira cerca de 1 milhão de cópias de seus álbuns. 

Um fenômeno que talvez passa ser explicado por dois fatores. De uma lado, o fato de a maioria das bandas de rock ao tornar-se cada vez mais comercial abandonaram qualquer sentido de crítica social. De  outro lado, a própria essência dos Racionais MC's, que se mostram como autênticos representantes dos excluidos de um Brasil que apesar da vida sofrida não abandonam os valores de solidariedade e justiça social.   Como diz Mano Brown os "Racionais vão contar/A realidade das ruas/Que não media outras vidas/A minha e a sua/Viemos falar/ Que pra mudar/Temos que parar de se acomodar/E acatar o que nos prejudica"(Pânico na Zona Sul - 1988).  Vida longa aos Racionais MC's.

Publicado no Caderno MIX - Diário de Santa Maria em 12 e 13 de dezembro de 2008 sob o titulo Revolução Black

 


[1] Professor de História, mestrando em Integração Latino-americana pela UFSM. 



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 17h46
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O Sísifo Educador.

Leonardo da Rocha Botega - Professor de História.

Certa vez, no auge de uma autoridade supervalorizado por si mesmo e pelos seus apoiadores, o governante do Monte Olimpo, localizado em uma província ao sul de um grande país, condenou Sísifo, o educador, a um trabalho árduo, carregar em suas costas o peso da educação das futuras gerações. O motivo: ter roubado o saber dos poucos deuses de uma elite desumana e socializá-lo com os pobres mortais.

Mesmo cometendo tal crime, Sísifo o considerou gratificante, como o são todos os contatos humanos feitos com a disposição de quem quer ensinar e aprender algo de significativo. Porém, pensou, não somente de subjetividade a vida é regida. Com o apoio de uma sociedade que já não considerava o saber monopólio daqueles que se trancam em gabinetes, Sísifo conquistou direitos. Uma aposentadoria digna, um plano de carreira, a possibilidade de escolher os dirigentes de seu local de trabalho, conquistou até mesmo direito para os frutos de seu trabalho, garantindo a eles uma boa merenda enquanto aprendem.

O resultado gerou uma sociedade mais consciente de seus direitos e com princípios mais sólidos. Isto enfureceu o grande governante que despachou o Deus da Fome e da Miséria para que estes direitos fossem retirados e os salários, recebidos não somente por Sísifo, o educador, mas pelos muitos outros Sísifos pela província à fora, fossem congelados. O motivo: uma sociedade consciente não tolera a tirania e contesta aquilo que é vendido como verdade absoluta pela arte de torturar os dados segundo os interesses do poder chamada estatística.

O governante sorria com tal medida, pois não se dera conta que mesmo desrespeitado e muitas vezes considerando o seu trabalho como inútil e sem esperança, Sísifo não era uma aberração, nem tão pouco desprovido do valor mais forte da humanidade, a dignidade. Seres humanos dignos são capazes de qualquer coisa, disse certa vez, um Sísifo chamado Paulo Freire. Esta frase marcou a consciência de outros Sísifos que foram à luta e assim se manterão por toda a eternidade ensinando a mais alta honestidade que nega os deuses e ergue rochas.

Este texto se baseia em O mito de Sísifo de Albert Camus.

Publicado no site Claudemir Pereira em novembro de 2008.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 17h44
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Qual o futuro de Santa Maria?

Leonardo da Rocha Botega[1]

 

“Até agora, a cidade só pode ser o terreno de batalha da liberdade histórica, e não o lugar em que essa liberdade se realizou. A cidade é o espaço da história porque é ao mesmo tempo concentração do poder social, que torna possível a empreitada histórica, e consciência do passado”.

Guy Debord. A Sociedade do Espetáculo.

 

Mais uma vez estamos em um ano eleitoral em Santa Maria. Um ano típico como todos os anos eleitorais o são. Um ano de, pelo menos em tese, debate sobre os rumos do município, suas estratégias de desenvolvimento, suas políticas sociais, enfim, os desafios para o futuro da cidade. Uma discussão que caminha em uma conjuntura de muitas incertezas e de grandes problemáticas, afinal a cidade vem perdendo as características que marcaram a sua constituição histórica.

Ao longo de sua história Santa Maria teve dois grandes ciclos de desenvolvimento, um primeiro iniciado com a fundação da Rede Ferroviária na década de 1880 e que se estende até os anos 1960, quando ocorre a fundação da Universidade Federal de Santa Maria.

O primeiro ciclo foi o momento de formação de nossa cidade a partir de uma estrutura urbana concentrada basicamente no entorno da Avenida Rio Branco. Já o segundo ciclo de desenvolvimento é marcado pelo aumento significativo do número de funcionários públicos em nossa cidade, além dos militares, dos ferroviários, dos funcionários da UFSM, ocorre também uma forte expansão do número de escolas estaduais e municipais. Estes dois ciclos que se complementaram entre si criaram uma idéia de prosperidade na cidade, sobretudo, com o aumento do comércio e da população urbana que de 57% da população geral em 1950 saltou para 90% da população geral em 1990[2].

Porém, por trás desta idéia de uma cidade próspera havia uma outra cidade se constituindo, uma cidade que não vemos escrita em nossos livros sobre a história do município, ou quando vemos é com receio ou desprezo. Esta cidade dentro da cidade é o conjunto de nossas Vilas e Bairros que, em grande parte, se formaram a partir de ocupações irregulares. Um processo iniciado em 1960, com a ocupação da Vila Nossa Senhora do Trabalho, na Zona Norte, justamente no momento em que o centro da cidade iniciava a sua reformulação deixando de ser uma área prioritariamente de habitação para ser uma área prioritariamente comercial. Tudo isto em um contexto onde a cidade adquiria o seu forte poder de atração sobre pessoas oriundas dos mais variados locais, seja para estudar na universidade, seja para buscar uma oportunidade de trabalho.  

Este processo se expandiu por toda a região periférica da cidade e em 2002 contabilizava, conforme Alessandra Pinheiro[3], uma estrutura urbana onde mais de 60% do território se constituiu a partir de ocupações irregulares, sobretudo, nas regiões com maior número de habitantes. Mas, mesmo assim, este fenômeno não é sequer tratado nas discussões sobre o desenvolvimento da cidade e, o que é pior, os ocupantes são tratados com preconceito e desprezo até mesmo por aqueles que vivem em locais que se formaram a partir de ocupações como é o caso do muro construído entre a Vila Noal e a ocupação da Vila Natal.

A idéia de prosperidade começou a perder seu impulso com a crise econômica ao qual o Brasil mergulhou a partir do final do Milagre Econômico na segunda metade dos anos 1970. Desde então a classe média, principalmente o funcionalismo público, vem tendo perdas salariais significativas, e como esta juntamente com aos grandes proprietários rurais da metade sul do Estado (outra região em franca decadência) formam as principais camadas do mercado consumidor de Santa Maria, consequentemente temos assistido a decadência dos setores de comércio e de serviços, os mais importantes da economia municipal. Este fato constitui o pilar básico do fechamento dos dois ciclos de desenvolvimento.

Nesse sentido, é que podemos falar que Santa Maria é uma cidade em crise, uma crise que não é nada mais nada menos do que o aprofundamento da permanente crise urbana pelo qual passam as cidades constituídas pela ótica do capital. Uma crise que conforme Castells “provém da crescente incapacidade da organização capitalista para assegurar a produção, distribuição e gestão dos meios de consumo coletivo necessários à vida cotidiana, da moradia às escolas, passando pelos transportes, saúde, áreas verdes, etc”, uma crise que “não é simples ‘deficiência’ do sistema econômico: é uma conseqüência necessária da lógica do desenvolvimento capitalista, a menos que essa lógica seja contraditada historicamente pelos efeitos da luta de classes” [4]. No caso as ocupações, tanto de áreas irregulares (os vazios urbanos) como do centro da cidade pelos trabalhadores informais, que de forma legítima preenchem as brechas deste sistema desigual, tem sido este contraditório.

Desta forma, não podemos superestimar os efeitos dos novos investimentos sobre o mercado de trabalho e a renda local, como a única saída para a crise. É obvio que a atração de investimentos dinamiza a economia da cidade, porém, esta não deve ser a única saída para a cidade. Deve-se, além disso, ter também uma preocupação com os empreendimentos locais para que não se percam os postos de trabalho já consolidados. Deve-se ter a preocupação de uma política de longo prazo de inclusão em nosso mercado de trabalho daqueles que deixam a cidade por falta de oportunidade, bem como, combate a exclusão social que cada vez mais tem gerado grandes bolsões de miséria em nossas periferias.

Para isto, não devemos eleger um único setor como o carro-chefe da economia municipal. Diferentemente do debate que constantemente vem à tona sobre a vocação da cidade, a história do desenvolvimento das cidades demonstra que não há cidade que se dinamize a partir do desenvolvimento vocacionado para um único setor. Afinal, as complexas estruturas urbanas atuais não se desenvolvem todas por um único caminho.

Como bem lembraram Marx e Engels, “a existência da cidade implica ao mesmo tempo a necessidade da administração, da polícia, dos impostos, etc., em uma palavra, a necessidade da organização comunitária e, portanto, da política em geral” [5].

É justamente esta política em geral voltada para o conjunto da população, com destaque para as camadas mais pobres, com a preocupação com o potencial turístico, o patrimônio histórico e cultural e suas potencialidades de desenvolvimento econômico e social, que carece de uma discussão mais ampla em Santa Maria. Esperamos que esta seja a grande pauta eleitoral do próximo ano.

 

Publicado no Diário de Santa Maria – Caderno MIX em 05 e 06 de janeiro de 2008.



[1] Professor de História do Instituto de Educação Olavo Bilac e do UP! Vestibulares, Especialista em História do Brasil e Mestrando em Integração Latino-Americana pela UFSM.

[2] Fonte de dados: IBGE, censos demográficos.

[3] PINHEIRO, Alessandra do Carmo. Levantamento e análise do processo de ocupação irregular do solo urbano nos últimos 30 anos (1970-2000) em Santa Maria-RS.  Monografia de Graduação. Santa Maria: UFSM/Curso de Geografia, março de 2002.

[4] CASTELLS, Manuel. Cidade, democracia e socialismo. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

[5] MARX, Karl & ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã. São Paulo: Martins Fontes, 1998.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 11h58
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Imprensa e História Política: Gramsci como alternativa teórico-metodológica - Notas

* Professor de História da Escola Básica Estadual Érico Veríssimo e do UP Vestibulares, de Santa Maria-RS, Especialista em História do Brasil pela UFSM.



[1] Entre as análises feitas a partir desta perspectiva podemos destacar: SILVA, Carla Luciana Souza da. Veja: o indispensável partido neoliberal (1989 a 2002). Tese (Doutorado em História). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2005. SILVA, Carla Luciana Souza da. Imprensa como partido: uma leitura marxista de Gramsci a partir de VEJA. In. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História. Londrina-PR: julho de 2005. SILVEIRA, Caren Santos da. Aspectos da organicidade entre as formas discursivas de oposição veiculadas na revista Veja nos anos 1980. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: PUC-RS, 2003.   

[2] Sobre este tema ver: GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. 5ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.

[3] Sobre este tema ver: PORTELLI, Hugues. Gramsci e o Bloco Histórico. São Paulo: Editora Paulina, 1984.

[4] Aqui, Gramsci, diferencia as sociedades ocidentais e as sociedades orientais conforme a organização de suas estruturas de Estado. Enquanto no Ocidente ocorre uma estrutura de Estado ampliado, no Oriente há uma estrutura de Estado restrito que tem por base a manutenção e a reprodução da dominação a partir tão somente do poder coercitivo. Cabe ressaltar também que a divisão entre Ocidente é Oriente em Gramsci não é uma divisão geográfica, mas sim, conceitos históricos de conteúdo sócio-econômico que representam o tipo de sociedade e o papel desempenhado pela Sociedade Civil e pela Sociedade Política na organização e reprodução das estruturas sociais. 

[5] Esta visão já pode ser encontrada de uma forma ainda não elaborada no texto onde Karl Marx analisou a imprensa inglesa, mostrando as diferenciações entre a imprensa ligada ao Partido Tory e a imprensa ligada ao Partido Whig. Ver: MARX, Karl. A opinião dos jornais e a opinião do povo (1861). In. Liberdade de Imprensa. Porto Alegre, LP&M, 2006.     

 

 

Referências Bibliográficas

 

FALCON, Francisco. História e poder. In. CARDOSO, Ciro Flamarion, & VAINFAS, Ronaldo. Domínios da História: ensaios de teoria e metodologia. Rio de Janeiro: Campus, 1997.

FONTANA, Joseph. História: análise do passado e projeto social. Bauru-SP: EDUSC, 1998.

SILVA, Rogério Forastieri da. História da historiografia: capítulos para uma história das histórias da historiografia. Bauru-SP, EDUSC, 2001.

DOSSE, François. A história em migalhas: dos “Annales” à “Nova História”. São Paulo: Ensaio, Campinas: Editora da Universidade Estadual de Campinas, 1992.

BURKE, Peter. A Escola dos Annales (1929-1989): a Revolução Francesa da historiografia. São Paulo: UNESP, 1997.

MISKULIN, Sílvia Cezar. Cultura Ilhada: imprensa e revolução cubana. São Paulo: Xamã, 2003.

SILVA, Carla Luciana Souza da. Veja: o indispensável partido neoliberal (1989 a 2002). Tese (Doutorado em História). Niterói: Universidade Federal Fluminense, 2005.

SILVA, Carla Luciana Souza da. Imprensa como partido: uma leitura marxista de Gramsci a partir de VEJA. In. Anais do XXIII Simpósio Nacional de História. Londrina-PR: julho de 2005.

 SILVEIRA, Caren Santos da. Aspectos da organicidade entre as formas discursivas de oposição veiculadas na revista Veja nos anos 1980. Dissertação (Mestrado em História). Porto Alegre: PUC-RS, 2003.

GRAMSCI, Antônio. Os intelectuais e a organização da cultura. 5ª edição. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1987.

PORTELLI, Hugues. Gramsci e o Bloco Histórico. São Paulo: Editora Paulina, 1984.

MARX, Karl. A opinião dos jornais e a opinião do povo (1861). In. Liberdade de Imprensa. Porto Alegre, LP&M, 2006.

GRAMSCI, Antonio. Cadernos do cárcere: Os intelectuais.  O princípio educativo. Jornalismo. V.2. 3a ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

 

Publicado na Revista Espaço Acadêmico – Nº 71- Abril/2007. Disponível na internet via WWW URL: http://www.espacoacademico.com.br/071/71botega.htm

Boletim do NPC — Núcleo Piratininga de Comunicação - Nº 104 - 1 a 15 de Abril de 2007. Disponível na internet via WWW URL:

http://www.piratininga.org.br/novapagina/leitura.asp?id_noticia=2298&topico=História



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 11h25
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Imprensa e História Política: Gramsci como alternativa teórico-metodológica: parte 2

Um segundo fator que veio em auxilio dessa renovação da história política diz respeito à difusão de novas correntes marxistas. Estas, em graus e segundo visões diferentes, travaram discussões que “lançaram luzes novas sobre o político, o Estado, suas relações com a sociedade civil” e abriram a “investigação histórica à questão muito mais ampla do poder, e daí à das suas formas de dominação” (FALCON,1997:76). Nesse caso foram de fundamental importância alguns conceitos althusserianos - autonomia relativa, sobredeterminação, determinação em última instância, aparelhos ideológicos do Estado – e gramscianos – hegemonia, bloco histórico, dominação versus direção, intelectuais tradicionais e orgânicos – para as novas abordagens e perspectivas da história política.

Nesse sentido a partir desta renovação:

“(...) A história política deixou de ser simplesmente factual, escolhendo temas a serem analisados na longa duração e trabalhando a questão fundamental do poder em suas múltiplas dimensões. Estabeleceu, ainda, pontes com outras disciplinas, ampliando objetos de estudo, encontrando novos conceitos (cultura, política, representação, imaginário).” (MISKULIN, 2003:16)

Nesta tendência de novas abordagens e perspectivas da história política é que podemos situar as análises da imprensa a partir dos conceitos oriundos da perspectiva gramsciana de abordagem dos fenômenos políticos[1].

Para Fontana,

“Uma das contribuições mais interessantes de Gramsci é a sua reflexão sobre os mecanismos pelos quais uma classe pode exercer a dominação sobre as outras, estabelecendo a sua hegemonia não somente pela coerção, como também mediante o consenso, transformando a sua ideologia de grupo num conjunto de verdades que se supõem válidas para todos e que as classes subalternas aceitaram.” (FONTANA, 1998:238) 

Entre estes “mecanismos pelos quais uma classe pode exercer a dominação sobre as outras”, encontram-se aqueles que Gramsci denominou de aparelhos privados de hegemonia, escolas, partidos, sindicatos, imprensa, entre outros organismos coletivos que elaboram e reproduzem as ideologias formando a consciência social.[2] É o conjunto dos aparelhos privados de hegemonia que constituem a sociedade civil, um outro conceito chave para a teoria gramsciana.

Diferentemente de Marx, para quem a sociedade civil é a base econômica, a infra-estrutura de uma sociedade. Para Gramsci, a Sociedade Civil corresponde a um espaço de mediação entre a infra-estrutura econômica de uma sociedade e o aparelho burocrático do Estado, o Estado propriamente dito. Sendo, portanto, parte da superestrutura que juntamente com a infra-estrutura econômica compõem o Bloco Histórico.[3]

Conforme a teoria gramsciana, há dois níveis superestruturais que se compõem nas sociedades ocidentais[4] o Estado Ampliado: a Sociedade Civil, que reúne o conjunto dos aparelhos privados de hegemonia, e a Sociedade Política, ou o Estado no sentido restrito do termo, ou seja, os organismos coercitivos do aparelho burocrático-militar de dominação política. Nesse sentido é que podemos afirmar o espaço da sociedade civil como o espaço do domínio da ideologia, em outras palavras, portador material da hegemonia, pois, é aonde se encontra a possibilidade de legitimidade, consenso, através dos aparelhos privados de hegemonia que se formam e divulgam valores e princípios ideológicos.

A partir da análise dos aparelhos privados de hegemonia, Gramsci chega à concepção da imprensa como agente partidário,[5] “sujeito político construtor de consenso e de hegemonia: formulador, organizador e fiscalizador de programas e projetos dos quais as próprias empresas jornalísticas fazem parte” (C.SILVA, 2005:26). Nesse sentido é que os jornais cumprem a sua função como “meio para organizar e difundir determinados tipos de cultura", articulados de forma orgânica com um determinado agrupamento social “mais ou menos homogêneo, de um certo tipo e, particularmente, com uma certa orientação geral” (GRAMSCI, 2004:32). Desta forma, temos definida a ação partidária dos jornais.

Gramsci exemplifica esta tarefa ao analisar os jornais italianos do início do século XX:

“Jornais italianos muito mais bem-feitos do que os franceses: eles cumprem duas funções – a de informação e de direção política geral, e a função de cultura política, literária, artística, científica, que não tem um seu órgão próprio difundido (a pequena revista para a média cultura). Na França, aliás, mesmo a função distinguiu-se em duas séries de cotidianos: os de informação e os de opinião, os quais, por sua vez, ou dependem diretamente de partidos, ou têm uma aparência de imparcialidade (Action Française – Temps – Débats). Na Itália, pela falta de partidos organizados e centralizados, não se pode prescindir dos jornais: sãos os jornais, agrupados em série, que constituem os verdadeiros partidos” (GRAMSCI,2004:218).[6]

Assim, podemos verificar que ao definir as impressas jornalísticas como agentes partidários, Gramsci rompe com as concepções liberais que entendem a imprensa como um quarto poder, cuja natureza própria é a responsabilidade social de vigiar o poder, aferindo a “opinião pública”, garantindo desta forma a liberdade de opinião.

Neste sentido, é que a perspectiva gramsciana ao propor um conjunto de conceitos e categorias que compõe uma interpretação crítica do papel desenvolvido pela imprensa nos processos históricos, rompe com a visão tradicional da história política abrindo novas possibilidades para os estudos da História Política.       



 


Escrito por Prof. Leonardo Botega às 11h25
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Imprensa e História Política: Gramsci como alternativa teórico-metodológica: parte 1

Leonardo da Rocha Botega *

Desde os anos 1970, o campo da história política tem dialogado com um conjunto de novas temáticas, num processo desenvolvido a partir de uma perspectiva de renovação teórico-metodológica deste campo historiográfico. Entre estas novas temáticas vêm ganhando destaque as análises do papel que a imprensa escrita tem tido ao longo da história, trazendo a tona uma noção mais ampla das formas de difusão da ideologia dominante em nossa sociedade.

Conforme Falcon, a história política nasceu juntamente com a concepção de história criada pelos gregos. Porém, é posteriormente que acaba “identificada como um tipo de história: a história política tradicional” (FALCON,1997:62). Esta identificação é iniciada no processo da Revolução Francesa quando os historiadores pretendiam ir contra uma história dos reis e da nobreza, construindo uma história verdadeiramente nacional destinada a formar patriotas (FONTANA, 1998).

Porém, é no século XIX, com a definição da ciência histórica, que teremos o auge da história política tradicional. É no contexto de afirmação da nova ordem burguesa que surgiram as correntes historiográficas definidoras da história política tradicional, sobretudo, o positivismo de Auguste Comte, na França, e o historicismo de Leopold von Ranke, na Alemanha. Para estes, a história seria um meio eficaz “para assegurar-se a difusão dos valores e idéias da nova sociedade” (FONTANA, 1998: 118).

 Assim,

“Prisioneira da visão centralizadora e institucionalizada do poder, a história política tradicional foi definindo progressivamente temas, objetos, princípios e métodos. Ligada intimamente ao poder essa história pretendeu ser também memória. Coube-lhe então, durante séculos, lembrar e ensinar pelos exemplos reais e ilustres de que era a única depositária. Esta história magistra vitae pôde então servir com equanimidade aos políticos, filósofos, juristas e pedagogos.” (FALCON,1997: 62).

 Esta função foi ainda mais acentuada a partir da ascensão do nacionalismo, quando a rivalidade entre as potências passava também pela competição no plano da organização de arquivos, fazendo com que a consolidação da história como disciplina fosse associada ao nacionalismo nas suas mais variadas manifestações. Na Alemanha este processo demonstrou-se conjuntamente à Unificação:

“Ao movimento político militar que culminou com a unificação alemã (1871) corresponde, com anterioridade, um movimento intelectual intensificado sobretudo após as guerras napoleônicas que, de certa forma, procurava justificação histórica para amparar as pretensões políticas daqueles que aspiravam a unificação alemã sob hegemonia prussiana. Da mesma forma que o movimento romântico incentivava o interesse pelo folclore e literatura alemã, passou a existir uma preocupação deliberada de buscar e explicitar as raízes da ‘nação alemã’ na história medieval” (R.F. SILVA, 2001: 55).

Esta unidade entre a história política tradicional e o nacionalismo entra em crise no período posterior a Primeira Guerra Mundial onde “a vontade deliberadamente pacifista” incitou “à superação do relato da história puramente nacionalista, chauvinista” (DOSSE, 1992: 23). Nesse contexto é que surge a Escola dos Annales, de Marc Bloch e Lucien Febvre, que na busca de uma abordagem nova e interdisciplinar da história condenava a história política tradicional caracterizando-a como elitista, biográfica, idealista e parcial (BURKE,1997). A partir desta sentença, “o jogo político, a vida parlamentar, os postos políticos são postos de lado” e, abandonado completamente, o campo político “se torna supérfluo, anexo, ponto morto no horizonte” (DOSSE, 1992: 25). Nesse sentido é que podemos falar que a partir dos anos 1929/30 a historia política tradicional inicia o seu declínio que culminará no período de 1945 à 1968/70 com a sua “crise final”.

Porém, no período seguinte a “crise final da história política tradicional” iniciou-se a progressiva constituição da “nova história política”. Este fenômeno está ligado a dois fatores. Primeiramente, o fato de a quarta geração dos Annales ter ido “buscar fora da historiografia os modelos e a sustentação teórica para repensar as relações Estado-sociedade imposto pelo seu interesse em renovar o estudo político” (FALCON,1997:75). Isso os levou ao encontro com o weberianismo, com o estruturalismo e a descoberta de Foucault, permitindo a abertura para novas e variadas concepções a respeito de temas pouco freqüentados pela historiografia: os poderes, os saberes enquanto poderes, as instituições supostamente não políticas e as praticas discursivas.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 11h24
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A massificação do ensino

Leonardo da Rocha Botega - Professor de História

“Essa concentração colossal, esse amontoamento de dois milhões e meio de seres humanos num único ponto centuplicou a força desses dois milhões e meio... Mas os sacrifícios que isso custou, só mais tarde se descobre. Quando se vagou alguns dias pelas calçadas das ruas principais, só então se percebe que esses londrinos tiveram que sacrificar a melhor parte de sua humanidade para realizar todos os prodígios da civilização, com que fervilha sua cidade; que centenas de forças neles adormecidas permaneceram inativas e foram reprimidas”.

A passagem acima de um texto elaborado por Engels descrevendo a sociedade londrina do pós-Revolução Industrial demonstra um dos grandes problemas que a massificação gera na sociedade. Desde os estudos elaborados pela Escola de Frankfurt as ciências sociais aprenderam à massificação como uma forma de dominação a partir da desindividualização do ser humano, a formação daquilo que Walter Benjamin chama de o “anônimo na multidão”, retraído em seus interesses particulares diante de uma sociedade que não o enxerga como um sujeito, mas apenas por mais um.

Esta lógica quando trazida para educação, no imediato pós-Segunda Grande Guerra, produziu dois efeitos, primeiro aumentou significativamente o número de matriculas nas escolas, o que é positivo, porém, por outro lado, produziu um sistema escolar em que os educandos não eram vistos como sujeitos, mas como mais um número dentro das escolas. Um número a ser disciplinado e padronizado para ser um “cidadão ideal” em uma sociedade de controle e consumo.

Neste sentido, é que enxergo na proposta do Conselho de Educação endossada pela Secretária Estadual de Educação de que as salas de aula do Ensino Médio tenham entre 35 e 50 alunos, um completo retrocesso em termos pedagógicos. Concordo com a professora Maria Beatriz Luce, do Conselho de Educação, quando diz que “Não há qualidade possível com 50 alunos em uma sala quadrada e uma mesa atrás da outra”. Porém, talvez a Conselheira não saiba que temos 50 minutos de aula e que uma aula em que todos participem, opinando e construindo suas visões de mundo, não deve restringir o tempo a um minuto de fala por educando.

Talvez os burocratas da educação devessem seguir o conselho da Unicef que diz que: “Se a criança precisa assistir às aulas em uma sala superlotada, repetindo mecanicamente aquilo que o professor diz, seu aprendizado e o atendimento de suas necessidades de desenvolvimento evidentemente não estão satisfatórios”. A menos que queiram que as forças-consciências dos educandos sejam adormecidas e permaneçam inativas.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 11h22
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A ti Véio Joél

 

Leonardo da Rocha Botega – Professor de História.

 

Aprendi no Curso de História da UFSM que em nossa formação cidadã somos uma espécie de síntese das múltiplas influências que recebemos. Algumas destas guardamos em nossos corações e procuramos em nossa prática cotidiana nos aproximar delas, outras simplesmente esquecemos ou não damos a menor importância. Assim, também são as pessoas que cruzam o nosso caminho algumas merecem a nossa atenção especial e fazem com que sejamos eternamente gratos a elas, outras não passam de vagas lembranças.

No último dia 30/03, ao receber a informação da passagem do professor Joél Abílio Pinto dos Santos, ou o “Véio Joél” como carinhosamente nós o chamávamos, fiz aquilo que todos nós fazemos quando diante do vazio deixado pela morte de alguém, procurar lembranças. Em minha ida até a escola onde trabalho, fui revendo os momentos significativos de minha formação acadêmica e cidadã, e lá estava ele, sempre ao nosso lado. Lembrei-me da minha primeira aula no Curso de História, no Auditório da Arquivologia, e daquele senhor grisalho disparando frases, piadas, sorrisos e indignações contra as injustiças sociais e o sentido natural que é dado a elas, como se a fome e o sofrimento fossem parte de nossa dimensão humana.

Gostei desde o primeiro momento daquela figura essencialmente humana e humanizadora. Da bravura diante de uma Instituição que na maioria das vezes gera acomodação e não indignação, naqueles que ali está. Gostava quando aquele senhor dizia não saber como as pessoas conseguiam dormir tranqüilas diante de tanta barbárie que nos assola. Aos poucos me aproximei daquele senhor e passei a chamá-lo de amigo, a partilhar de suas brincadeira, a militar conjuntamente pela defesa de uma Universidade Pública, Gratuita e de Qualidade. Um amigo que até mesmo em um momento festivo como na nossa formatura, não deixou de lembrar a nossa responsabilidade social e o nosso papel de educar para a transformação.

Se fosse resumir a figura do professor Joél (o que me parece impossível), diria que era um verdadeiro espinho em nossas consciências e na consciência daqueles que, em tempos de intelectuais silenciosos e indiferentes, acomodam-se em suas vidas privadas. Porém, a melhor síntese do professor Joél que encontrei foi uma dedicatória deixada em um de meus livros: “nas lutas pela historicidade dos sem história, dos sem vida, dos excluídos aprendemos junto... a minha homenagem”.

A ti “Véio Joél” todas as homenagens são poucas pelo que representaste para a gente!



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 15h08
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O Horror Escolar

Leonardo da Rocha Botega – Professor de História

 

Em 1996, em pleno auge do pensamento único neoliberal, onde a moda era (e será que ainda não é?) as privatizações, a flexibilização das relações trabalhistas e a destruição do “peso” herdado dos Estados de Bem-Estar Social, a intelectual francesa Viviane Forrester ousou romper o cerco e lançou “O Horror Econômico”. O livro crítica os efeitos nefastos que esta nova era, dominada por um poder cada vez mais concentrado em um discurso de que os rumos da sociedade são irreversíveis, produz na humanidade.

A autora, desta forma, nos faz enxergar uma exclusão que se constitui cada vez mais perversa, sobretudo, a partir de um desemprego, que não é mais ocasional, mas sim estrutural. Desenvolvendo esta idéia, Forrester chega às perspectivas da juventude diante de uma era marcada pela incerteza, o que passa pelos dilemas da educação contemporânea. Aqui, temos uma das análises mais profundas dos desafios e dilemas das estruturas escolares nesta fase em que a exclusão tornou-se regra e não exceção, onde a educação deixou de ser uma garantia de ascensão social. Hoje, no Brasil, apesar do discurso de que o trabalhador deve se qualificar, é entre aqueles com mestrado e doutorado que o desemprego tem se mostrado mais estável. Neste sentido, é que a autora lançou um desafio: qual o sentido da escola em uma era em que a educação deixou de ter o sentido de alavanca para a melhoria na vida dos jovens em geral? Onde os professores mal-remunerados estão ali tentando lhes doar a “última chance” em uma sociedade cada vez mais regressiva. Com certeza a leitura de “O Horror Econômico” gerou mal-estar.

 Porém, passado onze anos da publicação de “O Horror Econômico” fica a pergunta: nós educadores o que fizemos diante de tal realidade? Como, conforme a frase de Pablo Gentile e Chico Alencar, “educar na esperança em tempo de desencanto”? Para responder estas questões talvez devamos iniciar trabalhando a própria proposta de Forrester para quem “o ensino poderia pelo menos adotar como meta a oferecer a essas gerações marginais uma cultura que desse sentido à sua presença no mundo, à simples presença humana, permitindo-lhes adquirir uma visão geral das possibilidades reservadas aos seres humanos, uma abertura sobre os campos do conhecimento”.

Para que isto seja possível devemos iniciar um processo de ruptura com a forma de organização escolar, sobretudo, com as práticas alicerçadas no mito do progresso individual via educação, com os poderes de uma hierarquia escolar que não condiz com a transformação social. Mas, sobretudo, devemos romper com o predomínio da técnica sobre o humano nas metodologias de ensino, a final é este predomínio da técnica sobre o humano que produz esta sociedade sem esperança, esta que, por sua vez, produz o horror escolar.

 

Diário de Santa Maria, 13 de junho de 2007.

      

     

 

 



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 11h46
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A Rosa de Hiroshima

 

Leonardo da Rocha Botega – Professor de História.

 

“Pensem nas crianças mudas, telepáticas/ Pensem nas meninas cegas, inexatas/ Pensem nas mulheres, rotas alteradas/Pensem nas feridas como rosas cálidas /Mas, oh, não se esqueçam da rosa, da rosa/ Da rosa de Hiroshima, a rosa hereditária /A rosa radioativa, estúpida, inválida/A rosa com cirrose, a anti-rosa atômica /Sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”.

A poesia/música acima citada de autoria de Gerson Conrad e Vinícius de Moraes marcou época. Ganhando o status de uma das mais belas declarações de protesto contra as barbáries humanas, Rosa de Hiroshima tem novamente a sua atualidade posta em evidência neste momento em que se completam 60 anos da maior atrocidade (e porque não crime de guerra?) cometido ao longo da história.

No dia 6 de agosto de 1945, os cidadão japoneses de Hiroshima, na sua maioria mulheres, idosos e criança, afinal os homens ainda estavam na guerra, foram vitimados pelo principal exemplo daquilo que Michael Löwy chama de “industrialização do homicídio” que tem marcado as guerras modernas. A explosão da Bomba Atômica foi a auge das “novas guerras”, onde se misturaram a “novidade cientifica e tecnológica” e o “caráter distante e impessoal, puramente técnico do ato exterminador: pressionar o botão, abrir a escotilha que liberta a carga nuclear”.

Burocraticamente programado, por uma Comissão formada por cientistas, generais, técnicos, funcionários do Estado, políticos e intelectuais, o ataque foi programado a partir de duas idéias básicas: deveria ser realizado sem aviso prévio e a Bomba de Urânio 235 deveria exercer em sua totalidade seu poder de destruição. E assim foi feito, aproximadamente 50 mil mortos no momento da explosão e em torno de 100 mil mortos em conseqüência da explosão, mais algumas milhares de pessoas com danos físicos, psicológicos e sociais irreparáveis.

Infelizmente a Historia Oficial é contada pelos vencedores e a versão construída sobre o fato de esta ter sido a única forma encontrada para a rendição do agonizante Império Japonês foi construída e transmitida ao longo das gerações do pós-guerra continua viva. Não conta ela os interesses políticos que os EUA tinha por traz da hipócrita explicação do presidente Harry Truman de que “nós a utilizamos para abreviar a agonia da guerra, para salvar a vida de milhares e milhares de jovens americanos”. Tão pouco, a História Oficial, conta o sofrimento das vitimas que como diz a poesia ficaram “sem cor, sem perfume, sem rosa, sem nada”.

 

Jornal Diário de Santa Maria, 05 de agosto de 2005.

Escrito por Prof. Leonardo Botega às 20h45
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Auschwitz: 60 amos depois

 

Leonardo da Rocha Botega – Professor de História.

 

“A primeira patrulha russa pôde ser vista do campo por volta de meio dia de 27 de janeiro de 1945.(...) Eram quatro jovens soldados a cavalo, que agiam cautelosos, com as metralhadoras embraçadas, ao longo da estrada que demarcava os limites do campo. Quando chegaram ao arame farpado, detiveram-se, trocando palavras breves e tímidas, lançando olhares trespassados por um estranho embaraço, para observar os cadáveres decompostos, os barracões arruinados, e os poucos vivos”.

Assim, Primo Levi narra no livro A Trégua a libertação do campo de concentração de Auschwitz. Em meio a cadáveres em estado de decomposição expostos ao céu aberto e de valas lotadas de pessoas misturadas aos primeiros sinais do degelo de um inverno que todos gostariam de esquecer, os soldados soviéticos eram aclamados e saudados como verdadeiros “mensageiros da paz” que tinham em seus olhares um ar de vergonha, “aquela que o justo experimenta ante a culpa cometida por outrem”. Era a hora da liberdade para aqueles judeus que teriam marcados para sempre na memória, no corpo, na sua subjetividade os momentos de terror vividos naquele local.

Utilizado como prisão onde eram torturados os poloneses opositores ao nazismo, Auschwitz, cumpriria esta função até setembro de 1941, quando a idéia da Solução Final, que previa o extermínio da totalidade dos judeus da Europa, começa a ser colocada em prática. A partir deste momento, o campo teve suas funções ampliadas, era ao mesmo tempo campo de concentração, de triagem e de extermínio. Cerca de 2,5 milhões de judeus, juntamente com milhares de comunistas, ciganos, testemunhas de Jeová e dissidentes políticos, foram exterminados naquele local marcado pelo cheiro de carne humana em putrefação que podia ser sentido a quilômetros de distancia e que marcou a região por alguns anos pós-libertação.

Câmara de gás, fornos crematórios, “experiências medicas” feitas por Josef Mengele, o “anjo da morte”, foram às marcas deste campo de concentração que tinha em sua porta escrito que “O trabalho liberta”, o que parecia ser uma certa ironia, afinal as maiores atrocidades e atentados contra a liberdade ali eram cometidos.

Olhando a partir da distância temporal que marca as analises históricas, Auschwitz representa sinônimo de morte, sofrimento e dor, mas também representa a memória da intolerância, da ciência como meio de extermínio, da perca de sua individualidade por parte de milhares de seres humanos.

 

Jornal Diário de Santa Maria, 17 de janeiro de 2005.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 20h43
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O MODELO POLÍTICO DE GETÚLIO VARGAS

 

Leonardo da Rocha Botega – Professor de História.

 

Passados cinqüenta anos do suicídio de Getúlio Vargas, novamente somos levados a refletir sobre o seu legado. “Pai dos pobres”, Doutor Getúlio, populista, ditador, nacionalista, criador da Petrobrás, da Eletrobrás, e da Companhia Siderúrgica Nacional, tantas são as definições que muitas vezes deixamos de analisar o papel histórico desempenhado por este personagem da história contemporânea do Brasil.

Desde os escritos de Plekhanov sabemos que o “grande homem é grande não porque suas particularidades individuais imprimiam uma fisionomia individual aos grandes acontecimentos históricos, mas porque é dotado de particularidades que o tornam o individuo mais capaz de servir às grandes necessidades sociais de sua época”. Assim, Vargas foi fruto do seu tempo e um modelo único em um contexto único da história e, portanto, não deve ser visto como uma adaptação do modelo de Mussolini ou como um peronismo brasileiro.

Formado sobre a tradição política do RS, Vargas adaptou para o plano nacional um modelo político que já experimentara quando presidente da província gaúcha desde 1927. Frutos de uma visão que fundia o Hegelianismo, de onde vem a visão do Estado como motor da sociedade, com o positivismo castilhista e a sua tradição moral, os governos de Vargas são recheados de um pragmatismo maquiavélico que fez com que em determinados momentos se unissem sob o seu manto tanto a direita integralista como a esquerda comunista, tanto o empresariado financista como o proletariado sindicalizado.

Impulsionador de uma forte modernização conservadora baseada no modelo de substituição de importações, Vargas trouxe para cena brasileira a classe trabalhadora como um novo sujeito político, que, mesmo tutelado e atrelado ao Estado, deu os primeiros passos da formação de sua consciência política coletiva inaugurando a fase da política de massas no Brasil. Mas ao mesmo tempo negava qualquer tipo de idéia que visasse a implantação de um Estado Operário no Brasil, como lhe acusavam os Lacerdistas. 

Contraditório, o modelo político getulista só se acaba quando Vargas busca romper a tensão dialética, inerente a este próprio modelo, da construção de um capitalismo nacional com base popular e a negativa de rupturas mais bruscas com as estruturas sociais. Neste momento Getúlio acaba sendo forçado a sair “da vida para entrar na História” e a se tornar um ícone que quando referido mexe com as paixões e ódios daqueles que viveram o seu tempo.

 

Jornal Rascunho – CESMA, 24 de agosto de 2004.

Jornal Diário de Santa Maria, 27 de agosto de 2004.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 20h40
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A Independência como Mito Fundador

 

Leonardo Botega – Professor de História.

 

Ao nos aproximarmos da data de nossa “Independência” nos deparamos com os reflexos que a história tradicional produz. Como construtora de imagens que moldam o imaginário popular, esta visão de história é intensamente reproduzida nas fatídicas datas comemorativas, principalmente nos bancos escolares, e é a grande responsável pela construção de nosso Mito Fundador.

Para Marilena Chauí o mito produz uma narrativa que se torna “a solução imaginária para tensões, conflitos e contradições que não encontram caminhos para serem resolvidos no nível da realidade”. Este se torna fundador quando “impõe um vinculo interno com o passado como origem” produzindo “um impulso à repetição de algo imaginário, que cria um bloqueio à percepção da realidade e impede lidar com ela”.

Observando-a a imagem construída pelo nosso Mito Fundador concluímos que “somos um povo bom, pacifico e ordeiro” que conseguiu a separação da metrópole portuguesa sem derramamento de sangue, porém não de forma covarde, pois gritamos “Independência ou Morte” e fizemos tremer a coroa lusitana diante de nossa brava ameaça. Desta forma utilizamos a nossa versão oficial da história para produzirmos a crença generalizada de que somos pacíficos, ordeiros e que negamos a violência, porém estamos entre os maiores em número de chacina de crianças de rua. Produzimos a crença generalizada de um país sem preconceitos, onde os índios são ignorantes, os negros indolentes, os nordestinos atrasados, os portugueses burros e as mulheres inferiores.

Como podemos ver a construção de nosso Mito da Independência e da imagem de um país em que impera a ordem e a democracia racial, possui um efeito ideológico extremamente eficaz e nos levou a construir uma sociedade que aprende a tolerar a desigualdade social, a exclusão e as injustiças. Porém, fica a pergunta até quando nossos jovens, desiludidos e desesperançados, mas sedentos de cidadania, vão tolerar a falta de criticidade de nossa história oficial?

 

Jornal Diário de Santa Maria, 6 de setembro de 2006.



Escrito por Prof. Leonardo Botega às 19h41
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Educação para liberdade ou para reler A.S. Neill

 

 Leonardo da Rocha Botega – Especialista em História do Brasil pela UFSM e Professor da Escola Básica Estadual Érico Veríssimo.

 

 

Alguns livros possuem valor universal e duração quase que eterna, principalmente quando levam uma geração inteira a questionar as suas formas de vida, as suas práticas e acima de tudo os seus padrões éticos. Assim fizeram Platão e o seu “A República”, Santo Agostinho e as “Confissões”, René Descartes e o “Discurso do Método”, Baruch Spinoza e a “Ética”, Karl Marx e Friedrich Engels com o “Manifesto Comunista”, entre tantos outros autores e obras eternizadas. Na área da produção bibliográfica sobre Educação não é diferente, onde vários são os autores e obras “revolucionárias” sobre o tema. Porém, nem todos têm o caráter de adquirir contemporaneidade quanto ao que se propõe.

Uma das obras que fogem a esta questão chama-se “Liberdade sem Medo” de A.S. Neill. Escrito em 1959 como “uma tentativa para mostrar como surge à infelicidade, como essa infelicidade arruína a vida humana, e como as crianças podem ser educadas de forma que tal infelicidade jamais surja”, o livro é a “história de um lugar – Summerhill – onde a infelicidade das crianças é curada, e, o que é mais importante, onde as crianças são educadas para a felicidade”. Devido a este objetivo audacioso teve grande repercussão em todo o mundo como uma “radical transformação na teoria e na pratica da educação”, influenciando uma geração inteira de educadores, sobretudo, aquela formada sobre o calor das agitações estudantis do final dos anos 60.

  A proposta pedagógica de Summerhill, escola inglesa onde A.S. Neill cumpria a tarefa de diretor, era um tanto quanto audaciosa e tinha como idéia principal “fazer com que a escola se adaptasse às crianças, em lugar de fazer com que as crianças se adaptassem à escola”. Regida pelo principio da radicalidade democrática (e nesta época nem se utilizava este conceito) a gestão baseava-se nas decisões tomadas pela Assembléia Geral, onde professores, funcionários, pais e alunos, independente de idade e sexo, participavam com peso igual nas decisões, à escola sobrevivia a partir e para a liberdade.

A.S. Neill parte da concepção de que “a função da criança é viver a sua própria vida, não a vida que seus pais, angustiados, pensam que elas devem levar, nem a que está de acordo com os propósitos de um educador que imagina ser a melhor”, e para isto a criança deve crescer em liberdade. Como nos diz Erich Fromm no prefacio da obra “Neill mantêm a fé inquebrantável na ‘bondade da criança’” que “não nasce deformada, covarde, nem como autômato destituído de alma, mas tem amplas potencialidades para amar a vida e por ela se interessar”, e a escola têm o dever de desenvolver este potencial a partir da educação para a liberdade, formando seres autônomos e com capacidade de encararem de forma menos traumática a vida.

O pensamento e a proposta de Neill e de Summerhill olhadas no contexto atual, 56 anos depois de sua edição, ainda preservam o seu caráter revolucionário se observarmos a realidade dos sistemas escolares contemporâneos, onde os valores da globalização excludente produzem e reproduzem narrativas que servem, conforme Toni Negri, para “validar e celebrar o próprio poder”. Estas narrativas se alicerçam, principalmente, a partir de conceitos e de conteúdos que são transmitidos às crianças, e que são completamente alheios à realidade destas. Sem falar da sempre presente concepção advinda do Iluminismo de que a criança é o aluno, ou seja, o sem luz, e o professor o todo poderoso portador da luz, o que acaba sendo um instrumento eficaz de produção de pessoas acríticas, incapazes de uma intervenção consciente em seu meio.

Portanto, a leitura e a releitura de “Liberdade sem medo” deveria ser uma tarefa essencial na vida dos educadores contemporâneos, sobretudo aqueles que acreditam que o papel da Escola e do professor deve ser o de auxiliar os educandos a tomarem consciência de si mesmo - e por que não do mundo - sem susto e assim conduzi-los a felicidade, pois, “ser feliz, segundo Walter Benjamin, significa poder tomar consciência de si mesmo sem susto”.

Isto somente é possível se a criança aprender a ler o mundo com liberdade, esta é a lição principal de A.S.Neill e a que tornou Summerhill uma referência sempre atual de uma educação alternativa, democrática, anti-autoritária, e, sobretudo, voltada para a tarefa de realização da autonomia e da felicidade humana.

 

Diário de Santa Maria – Caderno MIX, 18 e 19 de março de 2006.

Escrito por Prof. Leonardo Botega às 19h40
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